Tudo começou no Ano da Graça de 1928
O Dr. Manuel
Rebelo Moniz, ao tempo presidente da Câmara Municipal de Resende, em entrevista
ao "Jornal de Notícias" de 23 de Agosto de 1928, deixou-nos a seguinte
informação: "O Seminário de Lamego, com cerca de 90 alunos, não tem alojamentos
suficientes. Desde há muito se tem pensado em o transferir. Apareceu à venda em
Resende a Casa do Sais, ocasião única e excepcional. Um verdadeiro palácio, de
salas amplas e arejadas, em um dos mais pitorescos lugares de Resende, local
admirável para quem estuda e medita. Não há melhor. Fui a Lisboa com o Dr.
Carneiro de Mesquita, e fizemos a aquisição, em princípio. A escritura de venda
far-se-á dentro de poucos dias".
Aos 7 de Novembro do mesmo ano, foi entregue no Governo
Civil de Viseu uma participação feita pelo Ordinário da Diocese de Lamego, dando
conhecimento da existência do Seminário Menor de Resende, como pessoa moral
canonicamente erecta com sede na Vila de Resende. Nessa participação, dizia-se:
"a referida entidade representa e promove os interesses e direitos concernentes
à formação de candidatos ao sacerdócio nos seus cursos preparatórios, com a
capacidade jurídica que lhe é reconhecida nos artigos 4.º e 5.º da Concordata".
Depois de algumas obras de adaptação do edifício,
feitas à pressa porque o tempo urgia, o Seminário foi solenemente inaugurado no
dia 18 de Novembro de 1928.
A festa começou com uma faustosa e devota procissão,
com início na Capela de Nossa Senhora da Salvação de Rendufe, onde, durante as
obras, fora guardada a imagem de Nossa Senhora de Lourdes da Casa do Sais. Eis
como o insigne historiador Dr. Manuel Gonçalves da Costa descreve a referida
procissão: " um cortejo aberto por duas filas de Crianças da Comunhão, seguidas
dos seminaristas de Resende e Lamego com a sua preciosa bandeira, oferta do Papa
Leão XIII, andor ao ombro de quatro estudantes, Câmara da Vila chefiada pelo seu
presidente Manuel Rebelo Moniz, pôs-se gravemente a caminho da primeira capela
que em Portugal se levantou a Nossa Senhora de Lourdes".
Seguiu-se um Solene Pontifical presidido pelo Senhor D.
Agostinho, acolitado pelos Cónegos João Correia de Paiva e Joaquim Pereira
Pedrosa e Sousa. A "Capela Musical" dos seminaristas de Lamego, dirigida pelo Pe.
José Correia de Noronha, cantou a Missa do maestro Saldanha Júnior. O sermão de
circunstância esteve a cargo do Cónego Dr. Francisco Correia Pinto, um
resendense ilustre, então no auge da fama, que empolgava as multidões com aquela
eloquência muito própria que lhe saía "do cérebro e do coração".
O dia foi todo celebrado em júbilo, louvor e
acção de graças.
Segundo testemunhos do tempo, eram 8 horas da noite
quando, numa velha camionete, pela estrada poeirenta de macdame, regressaram a
Lamego os seminaristas que para Lamego voltavam, despedindo-se de lágrimas nos
olhos dos colegas e amigos que naquele dia já ficaram em Resende. Foram sessenta
os que ficaram, do primeiro e do segundo ano.
Oitenta anos são passados na vida deste Seminário.
Ao longo de todos estes anos, pisaram os corredores
desta Casa muitos e muitos jovens, que nunca teriam sido o que foram na vida, se
Seminário não houvesse.
Muitos, atingiram o cume da montanha, subiram os
degraus do altar, e gastaram a sua vida toda como lamparinas de Fé, de Esperança
e de Amor: no Paço, na Sé, nos Seminários, e nas paróquias das vilas, da cidade
e das aldeias. Seis chegaram à plenitude sacerdotal, e serviram a Igreja e o
país, presidindo e pastoreando como bispos as dioceses de Bragança, de Leiria,
de Vila Real, Aveiro e de Lamego.
No silêncio das casas paroquiais, no recolhimento das
nossas igrejas, nos tugúrios da pobreza envergonhada, uma plêiade de sacerdotes
humildes e dedicados, vem escrevendo páginas douradas na história da diocese e
da Igreja.
Alguns, muitos, podiam ter chegado à ribalta do poder e
da fama e pedir meças aos que ocupam esses pedestais, mas aceitaram, por Deus e
pelas almas, e pela Fé que os norteia, permanecer no meio dos pobres e viver ao
jeito deles, ser com frequência perseguidos, insultados, incompreendidos, e mal
interpretados, sujar as botas nos carreiros estreitos e palhentos das aldeias, e
sofrer o frio, o abandono, o anonimato, e o isolamento das montanhas. Outro
pedestal lhes hão-de erguer a Justiça de Deus e talvez também a memória dos
homens.
Deus os recompensará.
Outros, descobriram a certa altura que o seu caminho
era outro. E foram pelo país e pelo mundo. Foram, para serem luz na cátedra, no
foro, nas letras, nas ciências, nas artes, nas repartições públicas, nas
profissões liberais, e mesmo nas cadeiras do poder. Os ex-seminaristas - por
esse nome os conhecemos - na sua maioria, mostraram-se bem dignos da Casa que
frequentaram e da educação que receberam. Transportaram orgulhosamente consigo a
honra de terem sido alunos do nosso Seminário, e, pela sua competência e
honestidade, brilharam e brilharão sempre como estrelas…
Parabéns, Seminário de Nossa Senhora de Lourdes, em Resende.
P. Joaquim Correia Duarte